
Três anos atrás, interrompi a pesquisa que realizava na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro para me alimentar.
Passava das 13h30. Cruzei a Cinelândia, tendo à direita o Teatro Municipal e à esquerda o rocambolesco edifício da Câmara Municipal e deparei com o trânsito interrompido.
Um homem, do alto do prédio vizinho à Câmara, na Avenida Treze de Maio, ameaçava saltar.
A concentração de pedestres era inevitável. E grande.
Os prédios ao lado do Teatro Municipal, na Treze de Maio, exibiam no térreo uma sequência de restaurantes e lanchonetes.
Saciei a fome num deles, fui até o Convento de Santo Antonio, retornei pelo mesmo caminho - a multidão se dispersava, pois o candidato a suicida tinha sido contido por um bombeiro - e retomei a pesquisa.
Por que esse "nariz de cera"?
Porque a lanchonete que frequentei estava num dos três prédios que desabaram ontem à noite (são os que aparecem ao fundo, tendo em primeiro plano um dos torreões da Câmara).
E daí?
Daí que, em vez de ontem à noite, eles poderiam ter desabado quando eu passava por lá e quando milhares de pessoas se espremiam na rua para ver o homem-que-queria-mas-não-queria-se-suicidar ou se comprimiam nas lanchonetes e restaurantes.
Novamente, e daí?
Daí que, por mais previsíveis que sejam nossos atos, as circunstâncias que os cercam são absolutamente incontroláveis.
Salvei-me, para desapontamento de muitos, mas muitos, para desapontamento de poucos, foram poupados.
A tragédia de ontem à noite tem a atenuante de ter ceifado poucas vidas. Porque, por uma circunstância incontrolável, ela aconteceu quando os prédios e as ruas do entorno estavam praticamente vazios.
E ninguém ameaçava se atirar do alto do prédio em frente.
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