O senador José Sarney (PMDB-AP) deve sacrificar o diretor-geral do Senado, Alexandre Grazineo, para se manter na presidência da Casa.
A manobra poderá ser inútil: ele já está tão desgastado nesse episódio de "atos secretos" do Senado que é difícil não associar sua imagem à de Severino Cavalcante, o aloprado presidente da Câmara dos Deputados e o representante do "baixo clero" que, fiel ao seu papel, revelou à Nação a essência da sua e da alma daqueles que representou - a absoluta falta de escrúpulos no trato da coisa pública.
Cavalcante teve uma passagem meteórica pela presidência da Câmara, enquanto Sarney, embora há pouco no cargo, seja o político mais longevo da história brasileira - e o que mais acumulou poder, a começar pela presidência da República.
Sarney sobreviveu a muitos embates, mas, desta vez, os
Marimbondos de fogo estão zumbindo muito próximo de seus ouvidos. Embora ele mantenha os ouvidos moucos a estes inconvenientes parceiros, a estridência dos zumbidos está conseguindo despertar a sonolenta opinião pública, entorpecida pela sucessão sem fim de escândalos que o nosso parlamento (
O parlamento nacessário?)tem sido pródigo em produzir.
Sarney é macaco velho e, portanto, sabe se equililbrar bem seja qual for a intensidade do vento, mas quando o galho quebra nem o mais serelepe dos bugios consegue manter-se no ar.
E o galho que o sustenta está se partindo. Ele não é o pai da criança batizada com o pressago nome e sobrenome de "Atos secretos do Senado", mas a revelação de que se utilizou deles a torto e a direito para beneficiar parentes e apaniguados políticos, tal qual
Dono do mar e da terra, o deixa por demais embaraçado no cipoal do escândalo do qual ele se tornou o epicentro. Ele se tornou o protagonista de
Brejal dos Guajas e outras histórias.
Dificilmente a questão será levada ao Conselho de Ética, pois o Senado não tem condição moral de julgar-se a si próprio, já que a cadeia de corrupção que se formou em torno dos "atos secretos" atinge a todos no atacado, mesmo que no varejo muitos sejam poupados.
Portanto, Sarney não deve temer seus pares - ou seriam sócios?. Seu mandato não corre risco, mas sua permanência na presidência do Senado está por demais fragilizada.
Se insistir em permanecer onde está, poderá desencadear contra si a mesma torrente de indignação que vitimou Severino Cavalcante. Porque nossos representantes, sejam deputados, sejam senadores, são eficientíssimos na defesa de seus pares - desde que essa defesa não os ameace.
Se permanecer onde está, Sarney continuará estimulando manchetes,
Semana sim, outra também. Se se afastar, se transformará num
Canto de página - o maior perigo, a cassação, estará adiado. Talvez definitivamente. Considere, senhor presidente:
A duquesa vale uma missa?
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As expressões em itálico são uma singela homenagem a algumas das obras que alçaram Sarney a membro da Academia Brasileira de Letras.