segunda-feira, 11 de maio de 2009
O novo "sendero" do Peru

O grupo terrorista peruano Sendero Luminoso, desmantelado pelo governo de Alberto Fujimori na década de 90, reapareceu com nova roupagem, informa o "Estadão" de hoje, tendo, em comum com o velho, apenas o nome: os métodos e a finalidade não são mais os mesmos.
O novo Sendero (Caminho) trocou a brutalidade que caracterizou seu antecessor - contra civis e militares - por uma política de boa vizinhança com a população onde atua. E atua não mais em praticamente todo Peru como o Sendero, limitando-se à região da selva - e vizinha do Brasil - entre os rios Apúrimac e e Ene.
E a pretensão de tomar o poder, o sonho que virou a alucinação de Abimael Guzmán (foto) o fundador do grupo - a ponto de adotar o nome de guerra de "presidente Gonzalo" - foi descartada: o que os remanescentes do Sendero querem é tranquilidade e paz para traficar cocaína.
O velho Sendero foi o que a ideologia pode produzir de mais deletério - o fanatismo levado às últimas consequências. Cerca de 30 mil pessoas foram mortas, comprovou a Comissão de Verdade e Reconciliação, criada pelo governo de Alejandro Toledo, que projetou a partir desse número a estimativa de 69 mil mortos, entre civis, militares e guerrilheiros.
A maioria das mortes ocorreu nos Andes, onde o Sendero surgiu e concentrou suas ações. O movimento foi criado por Abimael Guzmán, professor da Universidade de Ayacucho, uma cidade estratégica do passado, pois era escala obrigatória do ouro e da prata com destino a Cartagena de Índias, e de lá para a Espanha. E de grande simbolismo histórico, pois em dezembro de 1824 sediou a batalha definitiva pela independência da América, comandada por Antonio José de Sucre contra o vice-rei de La Serna.
O novo Sendero amplia sua área de ação na selva, pouco se lixando com o poder político - quer o poder econômico que a droga dá fácil e rapidamente. Trinta e dois militares morreram este ano em confronto com os novos senderistas, mas isso, perto do que foi o velho Sendero, é água fresca comparada à fornalha.
Abimael Guzmán, capturado em 1992, e toda a cúpula do velho Sendero foram julgados e condenados à prisão perpétua. Guzmán e Elena Ipaguirre, sua companheira e membro do comitê central da organização, estão incomunicáveis. Óscar Ramirez Durand, o camarada Feliciano, que insistiu em manter a luta apesar da ordem em contrário de Guzmán, foi preso em 1999 nas proximidades de Huancayo, numa operação comandada pelo próprio Fujimori. O Sendero manteve as armas silenciadas até que a organização se reestruturasse sob novo comando e adotasse novos métodos e buscasse novo objetivo.
Víctor Quispe Palomino, o camarada José, é apontado como o novo líder. Deveria, antes de mais nada, trocar o nome da organização. Sendero Luminoso é inspirado no pai do socialismo peruano José Carlos Mariátegui, que apontou essa doutrina como o "caminho luminoso" que deveria ser percorrido pela sociedade civil até chegar à perfeição.
O novo grupo, por uma questão de coerência, deveria se chamar "Sendero del pó" ou "Sendero blanco". E assinar um atestado de irmandade com as FARC colombianas, pois é o irmão temporão dessa organização colombiana, que surgiu para conquistar o poder pelas armas e, muito antes de chegar a meio caminho do objetivo, descobriu que o poder do dinheiro derivado do narcotráfico é mais estimulante que o político.
(Ps: a chamada de capa do "Estadão" sobre o tema está equivocada: "Retorno do Sendero, hoje ligado à droga, ameaça o Peru". Como uma organização com 600 homens pode ameaçar um país do porte do Peru, com 30 milhões de habitantes e uma das Forças Armadas mais bem equipadas da América?)
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